Trabalho escravo. Interessante. Faz alguns anos que esse assunto me é recorrente.
Posso ver imagens esmaecidas pelo tempo. Posso ler os títulos dos livros de história. A professora do colegial. O período do mercantilismo. As Grandes Navegações. O colonialismo e escravidão...
Se entendi direito, para os países do Velho Mundo era inadmissível usar mão-de-obra escrava do seu próprio continente, e compravam prisioneiros de guerra de um lugar, para explorar sua força em outro. Ambos bem longe de suas vistas...
Pessoas sofrendo ao ser tratadas pior que animais. Tudo para satisfazer a caprichos mesquinhos. Os livros de história ensinavam a lastimar esse passado repugnante. Como a um tirano degolado. Festejar a Era das Luzes. Da Razão.
Se entendi direito, para os países do Velho Mundo era inadmissível usar mão-de-obra escrava do seu próprio continente, e compravam prisioneiros de guerra de um lugar, para explorar sua força em outro. Ambos bem longe de suas vistas...
Pessoas sofrendo ao ser tratadas pior que animais. Tudo para satisfazer a caprichos mesquinhos. Os livros de história ensinavam a lastimar esse passado repugnante. Como a um tirano degolado. Festejar a Era das Luzes. Da Razão.
Mas o que tenho pensado é que não mudou muita coisa. O quinto dos infernos, o quarto, o terço, estão aí. Abocanhando parcela das riquezas de nossa terra.
O que tenho pensado é que o trabalho escravo. A escravidão está aí. As condições sub-humanas, principalmente se comparadas às dos nossos gatos e cachorros. E tudo para quê? Para suprir a minha necessidade intrínseca, aquilo sem o qual não posso viver. Eu preciso do novo aparelho eletrônico (que tem as mesmas dez funções, mas agora aprimoradas) Eu preciso da roupa da nova coleção (igual mas diferente).
As leis brasileiras proíbem a escravidão, e é verdade, ela subsiste. Mas ainda assim. O trabalho escravo é ilegal! É imoral! Mas aqui. No Brasil. Contudo não me parece imoral aquela mulher trabalhando dezoito horas por dia costurando duzentos vestidos iguais ao meu. Porque tudo bem, desde que não seja aqui. Não me parece errado aquele homem trancado por meses, em condições precárias em um navio, ancorado em águas internacionais, montando o meu celular. Tudo bem aquela criança estrangeira com diamantes de sangue.
São só pensamentos. Ideias. Meditações. Não tenho uma opinião formada. Até porque se eu tivesse, deveria me comprometer com ela. Teria que investir tempo em pesquisar a origem dos produtos que consumo. Fiscalizar se as empresas são sérias. Se pagam os salários dos funcionários em dia. O FGTS. O INSS. As horas-extras. Se a matéria-prima que usam é explorada por pessoas que trabalham em condições dignas. Se os caminhoneiros que transportam o produto dormem o suficiente. Se os carregadores observam o limite de peso a ser erguido pelos chapas. Eu iria observar que artistas trabalham no comercial daquelas marcas e que causas sociais ela defende. Eu iria comprar menos bolsas. Menos sapatos. Menos capinhas de celular. Menos maquiagem. Eu não trocaria de carro. Eu não baixaria aquele app. Não curtiria o vídeo. Não compartilharia aquela imagem. Eu plantaria uma horta e um pomar. Regaria flores. Eu consumiria menos, mas teria que pagar mais. Teria que eu mesma trabalhar mais. Realmente. Tudo isso requer tempo. E todo mundo sabe. Tempo é dinheiro. E dinheiro, meu bem, é o que move o sistema. Move este mundo.
Dito isso, peço licença. Minha hipocrisia me chama. Com um poup-up neon e piscante, convida e diz: venha. Venha enquanto você não se decide. Não se compromete. Vamos ali comprar alguma coisa que você não precisa. Algo que você não vai querer tanto assim amanhã. Algo desimportante para quem se importa com você. Não olha para os lados, aquieta os pensamentos e vem.
*inspirado em: vídeo publicado por Art Studio Victor Vidigal e compartilhado por Harley Pacheco Carvalho em 28/04/2016.
O que tenho pensado é que o trabalho escravo. A escravidão está aí. As condições sub-humanas, principalmente se comparadas às dos nossos gatos e cachorros. E tudo para quê? Para suprir a minha necessidade intrínseca, aquilo sem o qual não posso viver. Eu preciso do novo aparelho eletrônico (que tem as mesmas dez funções, mas agora aprimoradas) Eu preciso da roupa da nova coleção (igual mas diferente).
As leis brasileiras proíbem a escravidão, e é verdade, ela subsiste. Mas ainda assim. O trabalho escravo é ilegal! É imoral! Mas aqui. No Brasil. Contudo não me parece imoral aquela mulher trabalhando dezoito horas por dia costurando duzentos vestidos iguais ao meu. Porque tudo bem, desde que não seja aqui. Não me parece errado aquele homem trancado por meses, em condições precárias em um navio, ancorado em águas internacionais, montando o meu celular. Tudo bem aquela criança estrangeira com diamantes de sangue.
São só pensamentos. Ideias. Meditações. Não tenho uma opinião formada. Até porque se eu tivesse, deveria me comprometer com ela. Teria que investir tempo em pesquisar a origem dos produtos que consumo. Fiscalizar se as empresas são sérias. Se pagam os salários dos funcionários em dia. O FGTS. O INSS. As horas-extras. Se a matéria-prima que usam é explorada por pessoas que trabalham em condições dignas. Se os caminhoneiros que transportam o produto dormem o suficiente. Se os carregadores observam o limite de peso a ser erguido pelos chapas. Eu iria observar que artistas trabalham no comercial daquelas marcas e que causas sociais ela defende. Eu iria comprar menos bolsas. Menos sapatos. Menos capinhas de celular. Menos maquiagem. Eu não trocaria de carro. Eu não baixaria aquele app. Não curtiria o vídeo. Não compartilharia aquela imagem. Eu plantaria uma horta e um pomar. Regaria flores. Eu consumiria menos, mas teria que pagar mais. Teria que eu mesma trabalhar mais. Realmente. Tudo isso requer tempo. E todo mundo sabe. Tempo é dinheiro. E dinheiro, meu bem, é o que move o sistema. Move este mundo.
Dito isso, peço licença. Minha hipocrisia me chama. Com um poup-up neon e piscante, convida e diz: venha. Venha enquanto você não se decide. Não se compromete. Vamos ali comprar alguma coisa que você não precisa. Algo que você não vai querer tanto assim amanhã. Algo desimportante para quem se importa com você. Não olha para os lados, aquieta os pensamentos e vem.
*inspirado em: vídeo publicado por Art Studio Victor Vidigal e compartilhado por Harley Pacheco Carvalho em 28/04/2016.